Você Tem Fome De Quê ?
(Reflexões sobre Cultura e Barbárie)
O que é ser “civilizado” ? O que é ser ”bárbaro” ?
"O nosso planeta é como um trem lançado para um precipício. Ainda poderia parar, mas não o fará. E sabe porquê? Porque os maquinistas estão demasiado entretidos em assaltar os passageiros, em vez de puxarem a trava." (Milo Manara)
Por que nos indignamos com a invasão da propriedade, com a destruição da tecnologia e com o “assassinato” das mudas de eucalipto?(refiro-me ao episódio alardeado pela mídia no passado recente em que mulheres do MST destruíram os laboratórios e os plantios de mudas de eucalipto da Aracruz Celulose no RS.) Poderíamos até discutir se a atitude foi politicamente correta, ou se acabou virando um “tiro no próprio pé” do MST.Isso já foi exaustivamente feito. O que importa aqui, é refletir a partir desse episódio e perceber o quanto a mídia pauta a nossa existência, ao mesmo tempo em que domestica e naturaliza outras formas de violência muito mais relevantes, que acabam por tornarem-se “normais”. Então vejamos :
Por que não nos indignamos (com atos e não apenas retórica !) com os sintomas de violência cotidiana presentes em toda parte desse nosso mundo dito civilizado ?
São seis milhões de crianças morrendo de fome a cada ano no mundo ! (dêem uma olhada no site dos Médicos sem fronteira : www.msf.org) e façam as contas : Mais de 160 mil por dia, cerca de 6.600 por hora, algo em torno de 110 crianças morrendo de fome a cada minuto. Enquanto você lê este texto, digamos que demore uns bons cinco minutos, serão 550 crianças a menos !
O que há por trás deste mágico e perverso processo de construção/reprodução do imaginário, chamado ideologia, que por um lado oculta e deforma a realidade, ao mesmo tempo em que esteticiza e banaliza por outro, aspectos dessa mesma realidade que convenientemente devem ser esquecidos ?
Segundo o último relatório da FAO – organismo das Nações Unidas para a agricultura – A humanidade tem condições concretas hoje, para garantir a cada um dos mais de seis bilhões de habitantes do planeta uma dieta diária de 2.500 calorias. A rigor, não deveriam faltar alimentos. Por que isso acontece se existe tecnologia, dinheiro, trabalhadores e terras mais que suficientes para prover a todos ? Pense no que se gasta com guerras e armas... Certamente alguém está ganhando com essa situação ! Se fosse ruim para todos, já teríamos dado um jeito de resolver... Enquanto isso a gente vê as safras serem jogadas nos rios para “pegarem preço” e aquela conversa fiada das viúvas do Malthus de que “Tem gente demais no mundo”.
Basta ver a natureza: O sol nasce todos os dias, o ar, as águas e tudo o que vive constantemente doam-se gratuitamente. Se a natureza resolveu cobrar-nos algo, foi devido à nossa estupidez em não saber conviver com o que ela nos dá! Vejam, no entanto, o mundo dos humanos, a chamada “cultura” ou “civilização”: Ela se alicerça sobre a escassez, ao contrário da natureza que opera segundo uma lógica da dádiva e da abundância, o mundo humano precisa gerar a falta para aumentar o valor do que produz !
Não precisamos ser gênios para perceber. Os sintomas da estupidez humana estão por toda a parte. Concluo deixando você visualizar mais dois exemplos típicos da loucura que vivemos: A insanidade como as pessoas se comportam no trânsito e o outro, que é bem a cara da bagunça contemporânea, as bolsas de valores em meio à crise mundial, símbolo do poder da grana “que ergue e destrói coisas belas”. Afinal, quem é bárbaro e quem é civilizado e culto ?
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