segunda-feira, 13 de abril de 2009

A festa de Babette - Rubem Alves


Um dos meus prazeres é passear pela feira. Vou para comprar. Olhos compradores são olhos caçadores: vão em busca de caça, coisas específicas para o almoço e a janta. Procuram. O que deve ser comprado está na listinha. Olhos caçadores não param sobre o que não está escrito nela. Mas não vou só para comprar. Alterno o olhar caçador com o olhar vagabundo. O olhar vagabundo não procura nada. Ele vai passeando sobre as coisas. O olhar vagabundo tem prazer nas coisas que não vão ser compradas e não vão ser comidas. O olhar caçador está a serviço da boca. Olham para a boca comer. Mas o olhar vagabundo, é ele que come. A gente fala: comer com os olhos. é verdade. Os olhos vagabundos são aqueles que comem o que vêem. E sentem prazer. A Adélia diz que Deus a castiga de vez em quando, tirando-lhe a poesia. Ela explica dizendo que fica sem poesia quando seus olhos, olhando para uma pedra, vêem uma pedra. Na feira é possível ir com olhos poéticos e com olhos não poéticos. Os olhos não poéticos vêem as coisas que serão comidas. Olham para as cebolas e pensam em molhos. Os olhos poéticos olham para as cebolas e pensam em outras coisas. Como o caso daquela paciente minha que, numa tarde igual a todas as outras, ao cortar uma cebola viu na cebola cortada coisas que nunca tinha visto. A cebola cortada lhe apareceu, repentinamente, como o vitral redondo de catedral. Pediu o meu auxílio. Pensou que estava ficando louca. Eu a tranqüilizei dizendo que o que ela pensava ser loucura nada mais era que um surto de poesia. Para confirmar o meu diagnóstico lembrei-lhe o poema de Pablo Neruda “A Cebola”, em que ele fala dela como “rosa d’água com escamas de cristal”. Depois de ler o poema do Neruda uma cebola nunca será a mesma coisa. Ando assim pela feira poetizando, vendo nas coisas que estão expostas nas bancas realidades assombrosas, incompreensíveis, maravilhosas. Pessoas há que, para terem experiências místicas, fazem longas peregrinações para lugares onde, segundo relatos de outros, algum anjo ou ser do outro mundo apareceu. Quando quero ter experiências místicas eu vou à feira. Cebolas, tomates, pimentões, uvas, caquis e bananas me assombram mais que anjos azuis e espíritos luminosos. Entidades encantadas. Seres de um outro mundo. Interrompem a mesmice do meu cotidiano.

Pimentões, brilhantes, lisos, vermelhos, amarelos e verdes. Ainda hei de decorar uma árvore de Natal com pimentões. Nabos brancos, redondos, outros obscenamente compridos. Lembro-me de uma crônica da querida e inspirada Hilda Hilst que escandalizou os delicados: ela ia pela feira poetizando eroticamente sobre nabos e pepinos. Escandalizou porque ela disse o que todo mundo pensa mas não tem coragem de dizer. Roxas berinjelas, cenouras amarelas, tomates redondos e vermelhos, morangas gomosas, salsinhas repicadas a tesourinha, cebolinhas, canudos ocos, bananas compridas e amarelas, caquis redondos e carnudos (sobre eles o Heládio Brito escreveu um poema tão gostoso quanto eles mesmos), mamões, úteros grávidos por dentro, laranjas alaranjadas (um gomo de laranja é um assombro, o suco guardado em milhares de garrafinhas transparentes), cocos duros e sisudos, pêssegos, perfume de jasmim do imperador, cachos de uvas, delicadas obras de arte, morangos vermelhos, frutinhas que se comem à beira do abismo… Minha caminhada me leva dos vegetais às carnes: lingüiças, costelas defumadas, carne de sol, galinhas, codornizes, bacalhau, peixes de todos os tipos, camarões, lagostas. Os vegetarianos estremecem. Compreendo, porque na alma eu também sou vegetariano. Fosse eu rei decretaria que no meu reino nenhum bicho seria morto para nosso prazer gastronômico. Mas rei não sou. Os bichos já foram mortos contra a minha vontade. Nada posso fazer para trazê-los de volta à vida. Assim, dou-lhes minha maior prova de amor: transformo-os em deleite culinário para que continuem a viver no meu corpo. De alguma maneira vivem em mim todas as coisas que comi. Sobre isso sabia muito bem o genial pintor Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), que pintava os rostos das pessoas com os legumes, frutas e animais que se encontram nas bancas da feira. (Dê-se o prazer de ver as telas de Arcimboldo. Nas livrarias, coleção Taschen, mais ou menos quinze reais).

Meus pensamentos começam a teologar. Penso que Deus deve ter sido um artista brincalhão para inventar coisas tão incríveis para se comer. Penso mais: que ele foi gracioso. Deu-nos as coisas incompletas, cruas. Deixou-nos o prazer de inventar a culinária.

Comer é uma felicidade, se se tem fome. Todo mundo sabe disto. Até os ignorantes nenezinhos. Mas poucos são os que se dão conta de que felicidade maior que comer é cozinhar. Faz uns anos comecei a convidar alguns amigos para cozinharmos juntos, uma vez por semana. Eles chegavam lá pelas seis horas (acontecia na casa antiga onde hoje está o restaurante Dali). Cada noite um era o mestre cuca, escolhia o prato e dava as ordens. Os outros obedeciam alegremente. E aí começávamos a fazer as coisas comuns preliminares a cozinhar e comer: lavar, descascar, cortar — enquanto íamos ouvindo música, conversando, rindo, beliscando e bebericando. A comida ficava pronta lá pelas 11 da noite.

Ninguém tinha pressa. Não é por acaso que a palavra comer tenha sentido duplo. O prazer de comer, mesmo, não é muito demorado. Pode até ser muito rápido, como no McDonald’s. O que é demorado são os prazeres preliminares, arrastados — quanto mais demora maior é a fome, maior a alegria no gozo final. Bom seria se cozinha e sala de comer fossem integradas — os arquitetos que cuidem disso — para que os que vão comer pudessem participar também dos prazeres do cozinhar. Sábios são os japoneses que descobriram um jeito de pôr a cozinha em cima da mesa onde se come, de modo que cozinhar e comer ficam sendo uma mesma coisa. Pois é precisamente isto que é o sukiyaki, que fica mais gostoso se se usa kimono de samurai.

Quem pensa que a comida só faz matar a fome está redondamente enganado. Comer é muito perigoso. Porque quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos. Cozinhar é feitiçaria, alquimia. E comer é ser enfeitiçado. Sabia disso Babette, artista que conhecia os segredos de produzir alegria pela comida. Ela sabia que, depois de comer, as pessoas não permanecem as mesmas. Coisas mágicas acontecem. E desconfiavam disso os endurecidos moradores daquela aldeola, que tinham medo de comer do banquete que Babette lhes preparara. Achavam que ela era uma bruxa e que o banquete era um ritual de feitiçaria. No que eles estavam certos. Que era feitiçaria, era mesmo. Só que não do tipo que eles imaginavam. Achavam que Babette iria por suas almas a perder. Não iriam para o céu. De fato, a feitiçaria aconteceu: sopa de tartaruga, cailles au sarcophage, vinhos maravilhosos, o prazer amaciando os sentimentos e pensamentos, as durezas e rugas do corpo sendo alisadas pelo paladar, as máscaras caindo, os rostos endurecidos ficando bonitos pelo riso, in vino veritas… Está tudo no filme A Festa de Babette. Terminado o banquete, já na rua, eles se dão as mãos numa grande roda e cantam como crianças… Perceberam, de repente, que o céu não se encontra depois que se morre. Ele acontece em raros momentos de magia e encantamento, quando a máscara-armadura que cobre o nosso rosto cai e nos tornamos crianças de novo. Bom seria se a magia da Festa de Babette pudesse ser repetida…

segunda-feira, 16 de março de 2009

MUITO SIMPLES

Um sujeito estava colocando flores no túmulo de um parente quando vê um chinês colocando um prato de arroz na lápide ao lado.

Ele se vira para o chinês e pergunta:

- Desculpe-me, mas o senhor acha mesmo que o defunto virá comer o arroz?

E o chinês responde:

- Sim, quando o seu vier cheirar as flores.

Moral da História:

"Respeitar as opções dos outros, em qualquer aspecto, é uma das maiores virtudes que um ser humano pode ter. As pessoas são diferentes, agem diferente e pensam diferente. Portanto, nunca as julgue. Apenas tente compreendê-las."

Basta de Informação

“Hoje joguei tanta coisa fora. Vi o meu passado passar por mim.

Cartas e fotografias de gente que foi embora. A casa fica bem melhor assim”.

(Herbert Vianna)


O mundo produz anualmente o mesmo volume de informações que a humanidade levou 40 mil anos para acumular. Diariamente, quantos jornais podemos ler? Quantas revistas podemos consultar? Quantas e-zines podemos receber? Quantos canais de TV podemos assistir? Qual o custo de acessar informação nesta magnitude, muita dela em duplicidade? E qual sua aplicação prática?

Estamos próximos de uma situação limite. Um bombardeio frenético de informações diante do qual agimos como buracos-negros, absorvendo tudo, mas assimilando pouco. Uma overdose que gera conhecimento superficial e sabedoria reduzida.

Olhando para uma pilha de revistas percebi que ela representa muito mais. Simboliza a famigerada caixa de entrada de tarefas de nosso cotidiano, especialmente no âmbito profissional, que nunca, jamais se esvaziará. Representa a tendência que temos à burocracia, a inclinação por aspectos operacionais. Fazer, fazer, fazer. Não há espaço para o pensar, o planejar e, até mesmo, o sentir.

Pode parecer supersticioso, cabalístico ou poético, mas numa manhã de um sete de setembro declarei minha independência. Abdiquei da intenção de adquirir TV via satélite só para ter acesso a canais e programas exclusivos. Cancelei o recurso de confirmação automática de recebimento de e-mails deixando para utilizá-lo apenas quando for realmente imprescindível. Descartei recortes, guias e tablóides, guardados há tempos, sob a expectativa de que seriam, um dia, úteis. E, fundamentalmente, dei de presente ao lixo os jornais e as revistas não lidos.

Neste embalo, revisei roupas e calçados, separando peças negligenciadas no fundo de gavetas e armários e que, agora, ganharão vida no corpo de quem precisa. Reorganizei meus livros encontrando obras preciosas adquiridas por impulso e até hoje não saboreadas. Classifiquei meus CD´s e revisitei com prazer canções que nem lembrava mais de que as tinha.

E, assim, senti-me mais leve. É como se eu passasse de tartaruga a águia. Da lentidão à agilidade. Do conformismo à vivacidade.

A missão, agora, é evitar a recaída. Continuar livre, sobrevoando ao alto, decidindo quando voltar à terra, ou seja, qual informação capturar – aquela que me alimentar.

Texto de Tom Coelho – publicado na Revista VENCER!

quarta-feira, 11 de março de 2009

GENTE É PARA BRILHAR ! NO EMÍLIO NÃO TEMOS MEDO DA ALEGRIA !







Você Tem Fome De Quê ?

Você Tem Fome De Quê ?

(Reflexões sobre Cultura e Barbárie)

O que é ser “civilizado” ? O que é ser ”bárbaro” ?

"O nosso planeta é como um trem lançado para um precipício. Ainda poderia parar, mas não o fará. E sabe porquê? Porque os maquinistas estão demasiado entretidos em assaltar os passageiros, em vez de puxarem a trava." (Milo Manara)

Por que nos indignamos com a invasão da propriedade, com a destruição da tecnologia e com o “assassinato” das mudas de eucalipto?(refiro-me ao episódio alardeado pela mídia no passado recente em que mulheres do MST destruíram os laboratórios e os plantios de mudas de eucalipto da Aracruz Celulose no RS.) Poderíamos até discutir se a atitude foi politicamente correta, ou se acabou virando um “tiro no próprio pé” do MST.Isso já foi exaustivamente feito. O que importa aqui, é refletir a partir desse episódio e perceber o quanto a mídia pauta a nossa existência, ao mesmo tempo em que domestica e naturaliza outras formas de violência muito mais relevantes, que acabam por tornarem-se “normais”. Então vejamos :

Por que não nos indignamos (com atos e não apenas retórica !) com os sintomas de violência cotidiana presentes em toda parte desse nosso mundo dito civilizado ?

São seis milhões de crianças morrendo de fome a cada ano no mundo ! (dêem uma olhada no site dos Médicos sem fronteira : www.msf.org) e façam as contas : Mais de 160 mil por dia, cerca de 6.600 por hora, algo em torno de 110 crianças morrendo de fome a cada minuto. Enquanto você lê este texto, digamos que demore uns bons cinco minutos, serão 550 crianças a menos !

O que há por trás deste mágico e perverso processo de construção/reprodução do imaginário, chamado ideologia, que por um lado oculta e deforma a realidade, ao mesmo tempo em que esteticiza e banaliza por outro, aspectos dessa mesma realidade que convenientemente devem ser esquecidos ?

Segundo o último relatório da FAO – organismo das Nações Unidas para a agricultura – A humanidade tem condições concretas hoje, para garantir a cada um dos mais de seis bilhões de habitantes do planeta uma dieta diária de 2.500 calorias. A rigor, não deveriam faltar alimentos. Por que isso acontece se existe tecnologia, dinheiro, trabalhadores e terras mais que suficientes para prover a todos ? Pense no que se gasta com guerras e armas... Certamente alguém está ganhando com essa situação ! Se fosse ruim para todos, já teríamos dado um jeito de resolver... Enquanto isso a gente vê as safras serem jogadas nos rios para “pegarem preço” e aquela conversa fiada das viúvas do Malthus de que “Tem gente demais no mundo”.

Basta ver a natureza: O sol nasce todos os dias, o ar, as águas e tudo o que vive constantemente doam-se gratuitamente. Se a natureza resolveu cobrar-nos algo, foi devido à nossa estupidez em não saber conviver com o que ela nos dá! Vejam, no entanto, o mundo dos humanos, a chamada “cultura” ou “civilização”: Ela se alicerça sobre a escassez, ao contrário da natureza que opera segundo uma lógica da dádiva e da abundância, o mundo humano precisa gerar a falta para aumentar o valor do que produz !

Não precisamos ser gênios para perceber. Os sintomas da estupidez humana estão por toda a parte. Concluo deixando você visualizar mais dois exemplos típicos da loucura que vivemos: A insanidade como as pessoas se comportam no trânsito e o outro, que é bem a cara da bagunça contemporânea, as bolsas de valores em meio à crise mundial, símbolo do poder da grana “que ergue e destrói coisas belas”. Afinal, quem é bárbaro e quem é civilizado e culto ?

Escrevi mencionando as crianças, pois o que mais me revolta na vida é vê-las sofrer e também talvez, porque só confio e acredito nelas para mudar alguma coisa, e assim fico com a pureza da resposta do saudoso menino Gonzaguinha : “...É a vida, é bonita e é bonita !”

terça-feira, 10 de março de 2009